Se percebemos qualquer alteração em nossa visão, procuramos logo um oftalmologista. Se sentimos uma dor no joelho, não hesitamos em procurar um ortopedista. Se o problema é alguma mancha estranha na pele, procuraramos um dermatologista. Parece um movimento lógico, não? Mas porque não se aplica quando o meu problema é emocional? Porque hesitamos tanto em cuidar de nossa saúde mental? Porque os sintomas físicos merecem mais atenção do que as dores psíquicas?

Geralmente costumamos negligenciar nossa saúde mental, banalizando o que estamos sentindo. Aquela tristeza que se arrasta há algum tempo e lhe tira o ânimo para suas atividades, pode não passar sozinha, essa tristeza pode ser um diagnóstico de depressão. Aquele comportamento instável, ora deprimido, ora agitado, pode não ser apenas sua personalidade, pode ser um transtorno afetivo bipolar, que necessita de tratamento e medicação. Aquela insegurança ao sair de casa e vontade de evitar lugares públicos, pode não ser apenas receio de alguém medroso, mas o início de um transtorno de pânico. E por aí vai, são tantos outros exemplos, de sintomas que causam  enorme sofrimento e prejuízo à vida do indivíduo, mas que muitas vezes reagimos com um simples “ é assim mesmo, vai passar”. Quando sentimos ansiedade, acreditamos que irá passar. Quando sentimos pânico, acreditamos que irá passar. Quando queremos parar de usar alguma droga, acreditamos que é somente uma questão de força de vontade. Ou aquele ciúme que atrapalha minhas relações, é apenas uma questão de me controlar melhor.

Diferente de outras áreas da medicina, no qual a procura é por livre e espontânea vontade, a procura pela terapia, com muita frequência é associada a um fracasso significativo da própria capacidade de “ dar conta da própria vida sozinho”. Mas não é uma questão de dar ou não conta da vida, mas sim de vive-la com maior qualidade e prazer, viver não precisa e nem pode  ser um processo doloroso.
É importante pensar que minhas funções psíquicas, como pensamento, afetividade, memória, humor, estiverem comprometidos, aí então eu não serei capaz de dar conta da minha realidade, isso afeta diretamente todas as áreas da minha vida, como trabalho e relações afetivas.

No ano passado, 75,3 mil trabalhadores foram afastados de suas funções por depressão.
A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que, até 2020, a depressão será a doença mais incapacitante do mundo. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) estima que entre 20% e 25% da população tiveram, têm ou terão um quadro de depressão em algum momento da vida.

Esses dados nos alertam que nossas dores psíquicas que não estão sendo olhadas, nossas dificuldades emocionais que estão sendo negligenciadas, estão encontrando uma maneira de serem encaradas. Aquele sofrimento que poderia ter recebido mais atenção lá atrás, agora se transformou em sintoma e diagnóstico.

Portanto, precisamos cuidar de nossa saúde mental, promover um maior contato com nossas emoções e procurar ajuda quando esse distanciamento se transtorna em doença. Se cuidamos do nosso corpo com tanta responsabilidade, como podemos negligenciar nossas emoções, aquilo que temos de mais importante e singular?

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