Quando o assunto é relacionamento amoroso é frequente ouvirmos  frases do tipo : “não se apegue”, “não crie expectativas”, “Não espere nada em troca”, “não se envolva”. Frases que parecem indicar desprendimento ou autossuficiência de quem as defende, mas que também podem esconder uma tentativa defesa e insegurança.

A dúvida que sempre me fica é: como me relacionar sem me apegar ao outro? A definição de apego no dicionário nos diz: ligação afetuosa, afeição, estima. Não é disso que um relacionamento se alimenta? Uma relação sem esses ingredientes me parece muito mais uma espécie de narcisismo.

As relações precisam sim de apego, do querer estar junto, do desejar a companhia, não apenas precisam como estão carentes disso. Em época de tanto individualismo, de tantas pessoas isoladas em multidões, se apegar ao outro é sinal de muita coragem, e uma coragem que o amor exige. Se relacionar é se permitir vulnerável, é se entregar ao incerto, e como já disse Drummond “esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade”. Claro que se apegar é muito diferente de depender ou sufocar, e talvez esteja aí a confusão que a maioria das pessoas faz. Existem infinitas possibilidades entre depender e ser indiferente.

E como não criar expectativas em uma relação?

Precisamos criar expectativas, por que me relacionar se não posso esperar nada do outro? Melhor então ficar sozinho. Criar expectativas não é problema, desde que elas sejam reais, coerentes com o que o outro já demonstrou que pode me oferecer.  E principalmente que eu saiba suportar a frustração de ver essas expectativas não serem atendidas. Certamente essa é uma das nossas maiores dificuldades e que tem muito a ver com nossa vaidade. Eu espero algo do outro, e ao não ser atendido, passo a adotar um discurso de indiferença e desapego, que na verdade só esconde um coração frustrado e carente de reciprocidade.

Na incapacidade de lidar com a frustração a única saída é não me envolver e alimentar relações rasas e sem envolvimento? Não podemos encontrar um equilíbrio entre me doar e me preservar? Eu acredito que sim.

Ou seja, se entregue sim, mas se entregue sem se abandonar. Se não der certo, você tem para onde voltar.
E principalmente, faça tudo isso por quem merecer e fizer o mesmo por você. Parafraseando o psicanalista Contardo Calligaris,”se você encontrar alguém disposto a caminhar na chuva do seu lado, não fuja, molhe-se.”

 

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