“Me desculpem as feias, mas beleza é fundamental” . A famosa frase de Vinicius de Moraes, dita no fim da década de 50, parece hoje ter uma versão atualizada e expandida. Algo como, me desculpem as feias, as gordas, as magras , as fortes  ( e por aí vai), mas beleza, sensualidade, magreza, músculos, carisma ( e por aí também vai ) é fundamental. Ou seja, aumentaram os estereótipos e aumentaram as exigências.

O resultado disso? Uma série de mulheres cheias de capacidade de se amarem e serem felizes, infelizes e frustradas com sua imagem corporal e aparência. E em casos mais extremos, uma série de mulheres com transtornos alimentares, depressão e de baixo auto estima.

Temos aí uma questão cultural. A imagem da mulher sempre foi associada à beleza, seja na música, na literatura, na mídia… São muito exemplos que incorporamos sem nem percebermos; “A bela adormecida”, “A bela e a Fera”, “Uma linda mulher”, “se fosse mulher feia tava tudo bem, mulher bonita mexe com meu coração”. Talvez muitos pensem que trata-se apenas de elogios, de enaltecer a beleza feminina. Mas são “elogios” que aprisionam a mulher na condição de ser sempre bela aos olhos do outro. “Elogios” que há tempos vêm criando gerações e gerações de mulheres inseguras e neuróticas.

Na mitologia grega Procusto era o líder de um grupo de bandidos que prendiam e saqueavam viajantes. Esse bando, como prova de sua crueldade, obrigada esses viajantes a se deitarem em um leito onde teriam seus corpos moldados pela medida do mesmo. Os pequenos teriam seus corpos estendidos, e os grandes seriam mutilados, para caberem na cama. Todos tornavam-se uniformes, mesmo que não sobrevivessem à tamanha violência.

Será que hoje as mulheres não criam seus próprios leitos de Procusto ? Recorrem à constantes e invasivos tratamentos de beleza e rejuvenescimento,  excessivos exercícios físicos , dietas alimentares restritivas e cirurgias plásticas ( de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, as mulheres são responsáveis por 69% delas), mutilam corpos e sentimentos para caberem em moldes que lhe foram impostos?

Esse movimento que parece ser tão ligado à questões estéticas, tem na verdade, sua origem do lado de dentro, nas nossas emoções. Cada vez mais as mulheres relacionam uma autoimagem de valor à um corpo mais magro. Diante de uma baixa autoestima ( estar emocionalmente insatisfeita com sua vida), muitas mulheres buscam mudar seus corpos, por acreditarem ser mais fácil que procurar bem estar emocional. Como mudar emocionalmente é mais difícil, moldam seus corpos para aumentar o valor pessoal e diminuir a infelicidade. Essa relação é tão clara que, quanto mais contente e satisfeita a pessoa esteja com sua vida, menores serão suas insatisfações com medidas corporais. Vamos deixa claro que cuidar do corpo e da imagem para encontrar uma melhor versão de si, é diferente de depender disso para se amar.

Precisamos entender que satisfação pessoal tem muito mais a ver com a forma que conduzo minha vida, relacionamentos, amigos, família, trabalho, do que o tamanho de roupa que se usa. A imagem que se reflete no espelho é muito mais fruto da felicidade que sente do que os resultados da fita métrica.

 

As mulheres precisam não mais enxergar seus corpos como um acessório, que precisa ser constantemente melhorado, para que sejam aceitas. O corpo é aquilo que abriga nossa alma, que manifesta nossas emoções, que carrega nossas experiências. E isso já é motivo suficiente para amá-lo.

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