Vivemos tempos de felicidade obrigatória. Nas livrarias explodem títulos de autoajuda nos ensinando como ser feliz. Como ser feliz no casamento, como ser feliz na carreira, como ser feliz com sua forma física. Nas redes sociais não faltam fotos de explícita felicidade e muito menos posts com frases sobre superação e performance.

Parece que de repente a tristeza virou motivo de fraqueza. Justo ela, tão inerente à nossa condição humana. E tão necessária também. Em um relacionamento que se encerra cabe a tristeza do luto, em um projeto que fracassa cabe a tristeza da derrota, em uma amizade rompida cabe a tristeza da ruptura, em uma fase que se encerra cabe a tristeza da saudade.

E aí sim, depois de tantas tristezas cabe enfim o recomeço, cabe a superação e cabe a felicidade novamente. Mas é importante acolhermos cada momento, sem negação e sem julgamento .

Em minha prática profissional me deparo diariamente com sentimentos de tristeza, e percebo o quanto eles poderiam ser mais leves se não viesse carregados da culpa de quem os sente. Da sensação de não estar sabendo lidar com um momento no qual aquele sentimento é absolutamente pertinente. E essa sensação de incompetência emocional acaba por gerar ainda mais tristeza, além de grandes prejuízos à autoestima daquele sujeito.

Assim como não podemos controlar os fatos que nos rodeiam, não podemos também controlar aquilo que sentimos diante deles. Sim, pessoas adoecem, acidentes acontecem, relacionamentos acabam, planos não dão certo… e quando tudo isso acontece nós entristecemos. Ficamos tristes por um tempo, às vezes pessimistas também, desacreditados. Mas pessoas também se curam, novos relacionamentos se iniciam, projetos viram sucesso, e quando tudo isso acontece voltamos a ser felizes, otimistas também, acreditados na vida e na felicidade. E assim vivemos neste ciclo, exatamente como diz o provérbio português: “Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe”. Não dá pra querer ficar só com a parte boa da vida, o pacote vem completo, indiferente às nossas vontades.

Portanto, vamos deixar a tristeza voltar a ser um sentimento natural, e a felicidade uma busca e não uma obrigação.

Como sabiamente cantou Gil: “Não desespere
Quando a vida fere, fere
E nenhum mágico interferirá
Se a vida fere
Como a sensação do brilho
De repente a gente brilhará”

 

E no fim a gente brilha, é só saber esperar.

Facebook Comments Box