Certa vez li uma frase que dizia que certos amores foram feitos para existir e não para acontecer. E desde então me questiono sobre isso. Será que todo amor se transforma em uma relação? Será que todo amor ganha um final feliz? Será que todo amor é possível?

É comum ouvirmos coisas do tipo “ se acabou, então não era amor”, ou ainda na frase de Fernando Sabino: “no final tudo dá certo, se não deu, ainda não é o final”. Se pensarmos assim estamos afirmando então que todo amor verdadeiro, se torna uma relação que nunca se acaba. E se pensarmos assim estamos afirmando também que o único fator determinante para a existência e durabilidade de uma relação é o sentimento.

Particularmente acho uma explicação um tanto romântica e muito simplista para algo tão complexo como é o tema.

Penso que o sentimento é sim o principal fator para que duas pessoas se unam, mas este fator indispensável está dividindo espaço com outros elementos, também muito importantes. Duas pessoas podem se amar, mas a distância geográfica pode pesar. Duas pessoas podem se amar, e estarem em momentos diferentes de vida. Duas pessoas podem se amar e terem valores diferentes. Duas pessoas podem se amar e buscarem objetivos distintos. Duas pessoas podem se amar e terem personalidades conflitantes. Duas pessoas podem se amar e isso não ser o bastante.

Talvez nossa ideia de amor romântico dificulte esse entendimento. Aquela famosa história de “o amor suporta tudo”. Esse amor, esse sentimento tão verdadeiro e intenso, está inserido em um contexto, em uma história. Ele é enorme do lado de dentro, mas está cercado de variáveis do lado de fora, e muitas o externo pesa mais.

Nossa dificuldade com isso é tamanha que, sempre que o casal não tem um final feliz naquela comédia romântica, nossa tendência é achar o final triste. Mas nos questionamos se eles estão melhor assim? Nos questionamos se a relação era possível? Se eles serão mais felizes em seus caminhos?

Basta olharmos para tantos relacionamentos que vemos acabar, os nossos próprios, dos amigos, conhecidos… será em que todos eles não houve mesmo amor? Será que os sentimentos de todos não eram reais? Penso que sim, eram reais, mas não sustentáveis.

Alguns relacionamentos se estendem além do que é saudável justamente por essa dificuldade de aceitar que mesmo amando, às vezes é preciso se despedir. E a despedida de que se ama é sempre mais dolorosa. Mas a permanência em algo que o amor já não dá mais conta também costuma doer. Como uma frase que ouvi certa vez em um filme: “Era inadmissível que eu permanecesse ali. Mas era ainda mais impossível sair de lá”

Portanto, as vezes pode doer menos aceitar que o amor existe, mas ele não acontecerá. Não na realidade, embora possa para sempre existir do lado de dentro.

E finalizando com Los Hermanos: “eu sei, é um doce te amar, o amargo é querer-te pra mim”.

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