Amor e liberdade nos parecem duas condições muito importantes para felicidade, e até mesmo mais que importantes, necessárias. E embora as duas não possam faltar em uma relação, dificilmente conseguimos conciliá-las. Quanto mais amo, menos livre sou. É correto isso? Como pode um sentimento tão positivo como o amor nos tirar uma sensação tão vital como a liberdade?

Talvez essa dificuldade surja da crença de que dependemos do outro para ser feliz, de que dependemos de uma relação para sermos completos. Oras, se eu dependo de algo, já não sou mais livre. E aí começamos a transformar relações de amor em relações de dependências. Eu entendo que dependo da atenção, do carinho, da consideração do outro para me sentir bem e passo a negociar por isso. Passamos a fazer acordos em busca de nos sentirmos mais amados, mas o preço que pagamos por essas negociações é a nossa liberdade. Acordos como “eu te dou a atenção que você precisa, mas você terá que ser exatamente como eu quero”, “vou me doar para você e nossa relação, mas não poderá fazer nada que eu não concorde”, não costumam ser raros, e transformam a relação em uma prisão, onde o outro é um escravo para atender as minhas necessidades emocionais. Dessa forma, muitos casais seguem tirando a energia e liberdade do outro, codependentes dessa negociação que extingue qualquer individualidade e tenta transformar dois indivíduos e um só.

Um aspecto importante dessas relações de codependência é a necessidade de controlar o outro. Como eu me dedico à essa pessoa, passo a ter direitos sobre ela. O que era amor, vira poder. Segundo Jung “Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.” E o que mais vemos em relações atuais é essa distorção de amor e poder.

E esse poder, essa dominação do outro pode se manifestar de várias formas: sendo ciumento, despertando ciúme no outro para que eu me sinta segura, me vitimizando para que o outro se sinta culpado, enaltecendo os erros do outro para que eu me sinta melhor, me doando para que o outro se sinta em dívida, ou seja, despertando sentimentos inferiores no outro para que ele se sinta ainda mais necessitado de mim.  E por mais absurdo que isso pareça, me alimento da miséria do outro para me sentir importante e segura.

Geralmente essa necessidade de fazer o outro inferior e dependente de mim esconde uma enorme necessidade de amor exclusivo, de reconhecimento, de submissão do outro, necessidades muito provavelmente surgidas em vivências da infância. Feridas que eu não pude cicatrizar, e agora aprisionei alguém na missão de evitar essa dor. Portanto, se você negocia amor, procure identificar a origem do sentimento que faz de você tão inseguro e controlador, ao invés de depositar no outro a responsabilidade por sua segurança e felicidade.  Liberte, para ser também libertada.

Como diz a canção do Raul: “Amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero?”

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