Chuva forte lá fora e a luz acaba no consultório. Penso em aproveitar esse tempo e o pouco de bateria que ainda resta no meu computador para escrever algo. Tento escolher um assunto e logo me vem à cabeça (ou ao coração?): porque é tão difícil aceitarmos as pessoas como elas são? Por que estamos sempre tentando mudar o outro? Acho que o assunto me escolheu.

É difícil aceitarmos as pessoas como elas realmente são, ainda mais aquelas pelas quais temos algum afeto. Porque o “defeito” daquele que não me importa muito, também não me incomoda muito. Penso que nossa dificuldade de aceitação é proporcional à importância que esse alguém tem em nossa vida.

Tente observar: muitas vezes somos mais intransigentes com aqueles que mais amamos e convivemos. Como se amar aquela pessoa nos desse o direito de dizer como ela deve ser. Que vaidade a nossa, não?

Um caminho possível para essa aceitação é trabalharmos a ideia de que aquilo que é diferente de nós não necessariamente é errado. É apenas outra forma de pensar, outro ângulo de se ver, outra maneira de sentir. É pensar que a maneira correta de se viver é toda aquela que está de acordo como nossa visão de mundo, nossos valores, que é fiel ao que nos faz feliz, que é coerente com o que buscamos. Ou seja, é uma medida bastante individual. Fala-se muito em empatia como a capacidade de se colocar no lugar do outro. Mas não adiante se eu me coloco no lugar do outro de acordo com o meu ponto de vista. Precisamos  entrar no sistema de pensamento da outra pessoa e pensar segundo as regras que a norteiam. Difícil, não?

Na teoria até compreendemos, mas quando menos percebemos, lá estamos nós, censurando o outro e querendo que ele faça o que nós faríamos naquela situação. Um pensamento que talvez ajude: Será que minha maneira de ser também não incomoda outras pessoas? Será que todos concordam com minhas atitudes? Certamente não. E eu gostaria que elas me censurassem e tentassem me fazer ser diferente? Certamente não também.

É claro que no convívio com aqueles que amamos cabe fazer uma sugestão, trazer outra visão, dar um toque sobre como fazer algo melhor. Mas isso é diferente de querer mudar alguém, é diferente de exigir que o outro veja a aja como você. Essa linha é bem tênue e estamos sempre esbarrando nela.

Talvez parte do que chamamos de amor seja justamente acolher as partes mais difíceis do outro, com docilidade e aceitação. Acolher o que nos agrada é fácil. Aceitar que existem formas igualmente corretas de se existir ainda nos é um desafio, mas a medida que conseguimos entender e praticar isso nos tornamos mais gentis.

Como diz Mário Quintana: “Por favor não me analise, não fique procurando cada ponto fraco meu.. amor é síntese, é uma integração de dados, não há que tirar, nem pôr.”

 

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